02/03/2007 10:28
DEVANEIOS DE UM PSICANALISTA
Pego a maçaneta, abro a porta e meu consultório me cumprimenta com um largo sorriso.
Olho para a parede atrás de minha mesa e meus diplomas me apontam como uma autoridade do psiquismo humano.
Sento em minha cadeira e me sinto como um monarca em seu trono, preste a promulgar um edito.
À minha direita está a estante, e meus livros sugerem que sou um conhecedor de seus conteúdos.
À esquerda está o famigerado divã que, silencioso, assiste minhas análises e corrobora minhas interpretações.
Aqui estou. Senhor das emoções; intérprete do não dito; conquistador dos subterrâneos da mente; um médico da alma.
E o paciente? Ah! O paciente! Bem, o paciente, este estranho num ambiente estranho e amedrontador, está assentado à minha frente aguardando o término de meu devaneio para ser atendido, sem saber que ele é a única razão de minha existência e subsistência como profissional, bem como de meu narcísico consultório.
É por causa dele que estudo, me especializo, me reciclo, me esmero, e me mantenho disposto e disponível. É por ele (paciente) que me inclino (sentido literal do termo clinicar), sou atencioso e empático, sou solidário em sua dor, me faço companheiro para lhe fazer companhia em sua caminhada analítica, às vezes falando, às vezes silencioso sendo apenas bom ouvinte. É pelo meu estimado paciente que leio e releio as “Obras Completas de Freud”, o “Compêndio da Prática Psicanalítica” de Horacio Etchegoyen, “A Teoria Psicanalítica das Neuroses” de Otto Fenichel, e tantas outras publicações pertinentes, pois é ele quem me premia, massageia meu ego pela deferência, me sustenta, me “eterniza” na profissão.
O que seria dos analistas, médicos e psicoterapeutas, se não existissem os pacientes? Existiríamos? Existiriam os consultórios?
Aos pacientes, pois, minhas sinceras e efusivas congratulações e votos de que algum dia, alguém bem intencionado crie o “Dia dos Pacientes”, a exemplo do “Dia dos Médicos”.
enviada por Dr. Psico
Feed :: (O que é isso?)
|